Um cara esquisito, meio pirado

    Para contar a história de Serginho do Rock precisamos voltar ao início, ao nascimento de Antônio Sérgio Lima Freire. Foi no dia vinte e seis de outubro de 1940, na chácara dos avós paternos no bairro Fátima, onde a família morava. Sérgio era o filho mais velho de Antônio Bastos Freire, conhecido como Tonico Bastos, e de Marília de Lima Freire, a Dona Sinhazinha. Depois de nove anos do seu nascimento, em 1949, nasceu Maria Aparecida, a Cidinha – o nome é uma promessa de Dona Sinhazinha, porque Serginho nasceu com sopro no coração. Em 1958, nasceu a terceira e última filha do casal, Marília.

    Durante a infância, Sérgio estudou no Colégio Santo Antônio, um internato em São João Del Rei. Quando Sérgio voltou a Leopoldina, foi para cursar o básico, hoje ensino médio. Para terminar chamado segundo grau, acabou obrigado a ir para outro internato, desta vez em Petrópolis.

    Depois disso, Sérgio foi direto para o Rio de Janeiro. Ao que tudo indica, o pai deu a entender que, terminados os estudos, o filho deveria se virar. Serginho foi procurar emprego e em pouco tempo passou em um concurso da Caixa Econômica Federal. Durante essa época, sempre ia visitar a família em Leopoldina, mas depois de dez anos trabalhando no banco, decidiu largar tudo e voltar para a cidade natal.

Segundo Cidinha,
nas palavras da mãe,

“Sérgio fazia um ano em dois”

    Cidinha tinha acabado de se casar e para os pais foi um choque, já que não imaginavam ter que se preocupar com os outros filhos, além da caçula Marília. Sérgio era visto como boêmio, voltava para casa tarde da noite, o que deixava sua mãe preocupada e a fez optar por mais uma promessa para “colocar rumo” na vida de seu filho: ela iria parar de usar joias.

     Nesse período, Serginho participou como redator dos jornais “A verdade” e “A Tocha”, juntamente com Paulo Roberto Lisboa, mais conhecido apenas como Lisboa, seu amigo e artista plástico. Eles desenhavam e escreviam algumas propagandas para estabelecimentos comerciais locais, além de charges com críticas sobre acontecimentos da cidade, publicados nesses jornais. Participou de programas de rádio, época em que foi “batizado” com o nome de Serginho do Rock, pelo gosto musical que tinha.

    Depois de dar um pouco de preocupação aos pais, a promessa de D. Sinhazinha surtiu efeito e Serginho conseguiu um emprego como secretário na Câmara de Vereadores em Leopoldina. Ele passou no concurso e tomou posse no dia 31 de janeiro de 1974. Lá trabalhou ao lado de Jorge Luiz Baía, o Tula e de Ademar Mattos. Eram os únicos funcionários efetivos da Câmara naquele período.

    Alguns anos mais tarde, já funcionário da Câmara Municipal de Leopoldina, cursou o magistério onde reinava numa turma feminina. Apesar disso, Cidinha conta que ele nunca apresentou ninguém – nenhuma namorada – em casa: “tinha algumas que a gente suspeitava, mas ele nunca apresentou”. E claro que falando em vida amorosa, não faltaram fofocas sobre ele na cidade, Cidinha diz: “Já ouvi dizerem que ele era gay. Não parecia, eu acho que não era, mas se fosse seria um excelente gay”, ela brinca rindo.

Serginho ganhou o apelido
“do Rock” na época em que trabalhou
na rádio, por causa de seu gosto musical

    Para continuar com os estudos, Serginho escolheu a graduação em História em uma faculdade particular em Cataguases, mas não concluiu o curso. Sempre gostou muito de ler, todos os amigos o descrevem como um homem muito inteligente e culto, de uma redação excelente. Tinha inclusive sua biblioteca particular, batizada “Biblioteca Particular Heródoto de Halicarnasso”, com direito a carimbo para marcar todos seus livros.

    Além de ler, outra paixão de Seginho era a música. Segundo Cidinha, ele aprendeu a tocar violão sozinho, com auxílio das revistinhas que comprava. Ouvia os mais variados estilos, desde o canto dos índios americanos até discos de rock mais pesado. Suas composições começaram quando ele voltou para Leopoldina, ou pelo menos, foi nessa época que foram conhecidas por seus amigos e familiares.

    Em 1982, Serginho criou o “Hippie…nótico”, um jornal que na verdade, foi o início da ideia do que veio a se tornar o Girassol Maravilhoso, grupo descrito por ele na música de mesmo nome.

   Serginho era amigo de muitas pessoas da mesma idade e também muito mais novas que ele, conservadoras e as mais “revolucionárias”. Juntava todos no dia nove de julho, instituído o dia da bandeira do Girassol Maravilhoso, quando uma grande festa, organizada durante todo o ano, acontecia. A venda de camisas pintadas por Lisboa ajudava a custear a festa e servia como “ingresso”. Cada um levava o que melhor fazia. Dona Sinhazinha fazia o famoso pernil afiambrado, que demorava oito dias para ficar pronto. A bebida, barris de chopp e vinhos, era encomendada com antecedência. Não importava o dia da semana que caísse, para eles, o dia nove de julho era um feriado particular. Passavam o dia “na natureza”, como os próprios girassolinos descreveram. A cachoeira Poeira D’água e o lago da represa da Usina Maurício eram os lugares mais escolhidos para a festa, que durava o dia todo.

“Troca de energia, tertúlia vadia, requinte rural
A fragrância da roça anuncia: bom tempo, bons ventos, folia.”
(“Dia Nove de Julho”, Serginho do Rock)

    Em 1990, o pai, Tonico, faleceu depois de não se recuperar de um derrame que teve. O que ninguém esperava era que Serginho morreria cinco anos depois e, menos ainda, que a caçula, Marília – com quem Serginho nunca se deu muito bem, talvez pela diferença de idade de dezoito anos –, descobriria um câncer logo após a morte do irmão.

    No dia em que Serginho morreu, sete de agosto de 1995, Cidinha contou que ele estava com uma consulta marcada com um médico, em Juiz de Fora. A família procurou o médico para entender o que estava acontecendo. Ele afirmou que o coração de Serginho já estava “grande” e como “ele gostava muito de correr”, para o médico, estava forçando demais o órgão num momento em que deveria repousar. Ele teve arritmia cardíaca. Dona Sinhazinha o encontrou no quarto, com as pernas para fora e o tronco ainda na cama. “Os braços estavam pra cima, como se estivesse se rendendo”, contou Cidinha.

    Serginho estava trabalhando na gravação de um cassete com suas músicas, os amigos, então, resolveram realizar esse sonho. Com a ajuda da família, produziram e venderam camisas e pagaram todo custo da produção do CD com as músicas de Serginho. Amigos fizeram todo processo de mixagem, capa e encarte do CD e, foi possível, já em 1996, lançar o primeiro CD. Cidinha conta que a mãe e a irmã, mesmo doente, participaram de todo processo e chegaram a ir até Vitória, onde o disco estava sendo produzido. “Foi caríssimo arcar com as despesas, mas foi com o dinheiro das vendas do CD que a gente conseguiu pagar o congelamento da medula da minha irmã, na época era muito caro e só faziam em Belo Horizonte”, contou Cidinha. Infelizmente, a doença evoluiu muito rápido e nesses últimos meses, Marília ainda ajudou, junto a mãe, a escolher as faixas do segundo CD, que já estava em produção. Desta vez, um CD só com homenagens que foi lançado em 1997.

    Em 1998, a irmã caçula morre. Cidinha conta que Marília, mesmo inconsciente, também colocou as mãos para cima, segundo ela, em um sinal de entrega – como Serginho. Agora única filha, Cidinha conta que foi a mãe, Dona Sinhazinha, que lhe deu forças para viver depois da morte deles. Anos depois, Sinhazinha começou a participar de um coral. Ela era independente, a filha descreveu a casa que ela morava como de um livro infantil: “a casa tinha cheiro de chocolate”.

    No final de novembro de 2002, Dona Sinhazinha estava se apresentando no Conservatório de Música Lia Salgado, em Leopoldina, com o coral. A última música era Morro do Cruzeiro, do Serginho do Rock, seu filho. De acordo com Cidinha, a mãe chegou da apresentação falando que viu o Serginho nitidamente na janela enquanto cantava. Disse que era tão real que queria descer do palco para abraçá-lo. Poucos dias depois, no dia dois de dezembro, ela realmente foi abraçá-lo. Não só Serginho, mas também Marília e seu falecido marido, Tonico. Segundo Cidinha, ela morreu orando: tomou um banho, estava com pijama sentada na cadeira com as mãos para cima, assim como seus filhos. Cidinha sentiu muito a morte da mãe.

    Hoje, a casa onde a família morava foi demolida para dar lugar a um prédio: Edifício Residencial Lima e Freire – um tributo à família que viveu ali – onde haverá um hall em homenagem a Serginho do Rock.